Fahrenheit 451, sobre o filme
O Cine Brasília vem querendo nos fazer questionar o sistema doutrinador. Mais uma bela seleta antecedida pela exibição da animação "A revolução dos Bichos" (2026). Assisti aos 21 de junho de 2026 o filme lançado em 1966, Fahrenheit 451. Britânico, dirigido e coescrito por François Truffaut, baseado no romance homônimo de Ray Bradbury e estrelado por Julie Christie e Oskar Werner.
Livros, metonimicamente, foram feitos para causarem dor e sofrimento e, fisicamente, queimar a 232,78 °C. Assim, é melhor proibí-los e ofertar a população uma vida ascéticamente pasteurizada, a base de arquitetura brutalista homogênea, telas com atrações sem sofisticação e quadrinhos sem diálogos. Eventuais dores e mazelas são aplacadas com pílulas de remédios inominados sem bulas, apenas com rótulos de cores e números.
O tom situa-se entre a distopia orwelliana de "1984" e a claustrofobia kafkaniana de "O Processo". Mas o desfecho aponta para uma distopia diferente da de "Planeta dos Macacos", ante ao deslumbramento de obras vivas zumbis, num paralelismo de alienação dos ávidos leitores com os aturdidos viventes da pax de mentes desérticas nutridas a base de pão e circo. O autor quer nos inspirar a esperança nos livros e de que nada mais basta se os tivermos em mente, a única memória que importa, ainda que vivamos como hippies, hobbits ou elfos da floresta, ou talvez, macacos mesmo.
Claro que, enquanto bibliófilos, idolatrar Flaubert, Cervantes, Otelo, Platão é natural. Erigir monumentos em formato de prateleiras repletas de lombadas é nosso dever. Decorar nos dois sentidos, estético e ético. Mas seria esta a esperança na humanidade? O quanto entregamos de volta? Não recaímos num limiar entre a excentricidade num vetor entre a erudição e a pedância? A crítica efusiva feita pelos detratores de leitores e incendiadores de livros de que, aquele que lê se torna diferente e, quiçá, superior ao que não leu e, portanto, desigual, tem um certo valor, pois o risco da misantropia é real, dentre querer separar-se de humanos reais para conviver com humanos ideais que, de tão humanos, tornam-se o objeto livro que tanto leram. O cupim se torna celulose processada com tinta.
Recomendo também assistir A Revolução dos Bichos, dirigido por Andy Serkis. Com lançamento no Brasil em 28 de maio de 2026 pela Paris Filmes, consiste na adaptação da clássica fábula de George Orwell em que a rebelião utópica dos animais de uma fazenda se transforma gradativamente em uma implacável ditadura liderada pelos porcos, os animais que mais se aproximam da alfabetização dentre seus iguais na fazenda. Todos deveriam ser leitores assíduos para nos tornarmos iguais, porém, iroicamente, alguns são mais iguais do que os outros.
