Jeferson Tenório - De onde eles vêm. Sobre o livro.
Fora a primeira obra que li do autor do premiado livro O avesso da pele. Presente de aniversário de um casal de bons amigos.
Trata-se de uma narrativa em primeira pessoa de um jovem gaúcho, negro, cotista, que se aventurou em um curso universitário. Obra metalinguística, cuja narrativa mistura pretensões literárias com as de se tornar um literato, quiçá autor.
Pelas tantas, talvez na metade, um episódio com Homero ilustrou a tônica do livro: leve, sagaz, ao mesmo tempo direta e reticente, num presente sem futuro, o qual se descortina em saltos. Em meio a uma mesa de sinuca, com amigos de nomes e apelidos também pitorescos (Camelo, Caminhão — que era Maxwel —, Sinval, Juca — que era André), ilustrou a fina temática, despretensiosa, mas potente, de como o conhecimento não precisa vir acompanhado de pedante erudição. Ao roteirizar a vida de Odisseu, ante os jocosos paralelos com a vida de Telêmaco à espera do pai e de Caminhão à espera da descoberta do pai caminhoneiro, bem como a de Camila, pesarosa com Penélope ante a sua impostura de não trair o marido — caminho mais óbvio —, mostrou como a jornada do herói era a de si mesmo, envergando o clássico ao hodierno (e, ao usar essa palavra, ilustro meu ponto, sendo pedante sem erudição).
Ao invés de dezesseis anos fora do palácio, atravessava a odisseia cotidiana para chegar à sua casa no morro, contando moedas ou contando com o cobrador para deixá-lo passar pela roleta do transporte público intermunicipal. Ao invés do sequestro, deixava-se ficar de dois a três dias na casa da namorada branca, cuja compreensão da vida seria inferior à sua por não ter sido parada em blitz nem sofrido outros preconceitos e por não ter cuidado da avó, inebriada pela nuvem do esquecimento do Alzheimer. Travessia de muitos, numa época em que apenas a faculdade pública era uma opção, e mais penosa se forem mulheres, mais ainda se forem pretos e mais ainda se forem gays.
Mas e a literatura e o letramento? Perdera o concurso que financiara um passeio na praia; afinal, a cota provera o acesso à universidade, mas não o direito de ir, vir e estar dignamente. O subumanizado aventura-se a transcender o humano na abstração retinta da tinta versada no branco, invariavelmente por brancos que instrumentalizam o pigmento sem contemplá-lo na paisagem. E a literatura negra? E a literatura negra e feminina? Mas o soco existencial no estômago sob o solvente alcoólico. A resolução, advem com Nietzshe, lógico e profético. Camus, Sartre... e a consciência do absurdo em oposição a um pós-mundo Heideggeriano que o vomita de volta no presente plenificador. Discussões que fazem perder o solo, dos pés descalços do terreiro e levam ao abstrato sem identidade, sem origem numa automarginalização.
Mesmo sem origem, há ancestralidade. A literatura não teria de onde persistir, apenas de um atavismo, de colonizados colonos de terras não mais portuguesas, mas da lingua portuguesa. Sem passado, (...) "é preciso ir devagar antes de chegar no futuro, é preciso curar o dia".

