Desinências e variantes do amor

Amar altivamente será desejar sempre bem o amado? Mesmo em detrimento da própria pessoa? E quanto estamos dependentes, quando escorre a lágrima solitária no rosto desfigurado pela saudade? Não seria simplesmente o único conforto ver bem o bem querido? O amor pode vir sozinho? Não seria dissonante? O amor pode ser puramente físico? Etéreo? Amor somente na candura? Platônico? Há amor na perniciosidade? Deve-se ser capaz de fazer tudo pelo amado? O amor faz sofrer? O amor é divino? Deseja, então, divinizar-se? A tudo consola? Há motivos para consolo quando se ama? Tudo não deveria tornar-se pleno? Há sofreguidão? Langor? Melancolia? Sempre há vida e força? Vigor? Ápice? Ou envereda pela neutralidade, equilíbrio? Existe ou é um conceito desmesurado para se explicar o que não se explica? (out/2003)

Deus: panteísmo e mais um pouco

Numa gradação podemos colocar arte, religião e filosofia. A primeira jamais tocará o absoluto, a segunda pode fazê-lo inconscientemente. Ninguém cai de joelhos diante de um Van Gogh ou Da Vinci, mas a religião faz tocar o suprassensível. A filosofia o pretende através da consciência. Deus está em todo lugar. Existe antítese para tudo (terra e ar, branco e preto, anjo e demônio) mas não existe para "Deus". Nele o tudo e nada passam a ser uno, porém o absoluto é a parte componente do todo e ainda além. Deus é formado pelo todo absoluto e universal e pelo que jamais vai existir para o universo, como os pensamentos. Deve haver outras limitações além da matéria e energia, e os códigos do pensamento. Deus é transcendente a conceitos. (março/2003)

Sobre "Humano, demasiado humano", Friedrich Nietzsche

Ainda na busca por inventar um artefato para mensurar a distância entre o Homo sapiens e o humano, vi nesta obra algumas das peças que poderiam compor meu intento. Será o "humano" tão cru, àquele que não vê nada mais que um copo pela metade? Cujas convicções vão minguando em nome da perscrutada certeza? Nossos desvios morais movidos pelas paixões não caracterizariam esse "humano"? O entusiasmo pela religião não caberia à ciência. Um bom humano toma por mãe a mansidão dos pensamentos em busca da verdade, a qual não pode ser irrefutável, pois viraria dogma. Mas e se a ciência tiver nascido dos impuros instintos descobrindo que a religião é sua avó, do tipo que se faz ouvir sem sabermos por que e nos faz acatar suas determinações mesmo sem entender?

Sobre "Elogio da Loucura", Erasmo de Rotterdam

Façamos odes e libações à deusa Loucura! Despertemos a louca sabedoria, abdiquemos do predicado almejado na arcaica Grécia! Nobres, tolos, bispos, néscios, povo, vivos! A morte traz-nos a filosofia? Claro! Deve-se libertar do invólucro nefasto, sem esquecer de alimentá-lo. Das sutis maluquices às doideras desmedidas (triunfo maior). Somos todos doces templos cultuando nossos estereótipos, manias, objeções e consonâncias. Ah! paixões... doces e amargos licores a por lenha nessa máquina presunçosa e egocêntrica. Faça-me um favor: queime esta página, aliás, o livro todo!
Não! que impropério! Buscar a sabedoria é a maior das loucuras! É arriscar-se a ficar desgostoso e decrépito! Não é necessário exasperar-se. A Autora não conheceu os neofilósofos. Mas a obra é tão contemporânea que fez-me leva-la com insano sorriso...

Sobre "O pequeno príncipe", Antoine de Saint-Exupéry




Homens intransigentes em seus planetas. Voltados plenamente para si, caçando soluções para ideias que se tocam com os olhos. Ouvir as estrelas... pontos luminosos que escondem em seu mistério a face amada.
Ouvir as rosas. Sim, todas são rosas, efêmeras, rosas... Cativam-nos, choramos, partimos...


Onde estará meu mundo? Qual guiso brilhante devo ouvir? Basta amar. O amor torna único no universo o que antes parecia comum.  Basta amar. A resposta para tudo que jaz oculto na incompletude da postura de gente grande. Vamos enrijecendo paulatinamente até nos conformarmos com números e egocentrismo. O doce beijo daquela dama que veste o negro capuz nos tornará plenos. Como eternos voltaremos para as efêmeras rosas cativantes. Basta tombar devagarinho... como uma árvore tomba.

Sangrando legitimidade

A velha história de que para falar de sangue devemos estar sangrando... De fato podemos questionar a legitimidade dos poetas que falam de amor sem submeter-se aos eflúvios deletérios e revigorantes deste negócio alcunhado sentimento.

Fazer poesia com o corpo pode soar como pecado para alguns, mas somos tão infensos à efusão lírica... Pode a consciência vagar pelo campo da realidade construindo-a a ponto de tornar genuína uma experiência não vivida? A ilusão comercializada alimenta nossos vorazes instintos imaterializados. Entulhamos pensamentos influenciados pelo grande irmão em prateleiras rachadas prontas a desmoronar na cabeça desbastada pela opinião deste onipresente ninguém.

Se para chegar mais longe precisamos escalar em ombros de gigantes, e se para chegar em algum lugar diferente precisamos trilhar caminhos por onde outros não foram, como atingir autonomia de pensar com os próprios pensamentos? E sentir o que sentimos? Sendo animais sociais, cujas influências advém dos contatos, não podemos autenticar algo como inovador senão como uma versão diferente do mesmo.

As variantes não são tão numerosas... É bem provável, então, que apenas o sentimento possa legitimar o ato. Sendo assim, devemos nos proibir o sonho, a insanidade, a improperiosa suja poesia da conquista vazia, da parede em casca, do frasco sem essência. Melhor não criar envólucros para a dor, tesão ou tédio. Melhor apenas desejar sem explicações. Melhor derivar, divagar por ladeiras úmidas e desprender a poesia do limbo das veias enquanto sorvemos o sangue da amada.

O medo e a morte das palavras

Palavras como preto, viado, leproso, aidético ou omoplata podem ser consideradas proibidas nos dias de hoje. No mínimo aqueles desavisados e despretensiosos que proferi-las sofrerão algum tipo de preconceito até justificar seu uso pelo contexto. Como diria a mãe de Caetano: - Venha ver o preto que você gosta.

As palavras dizem o que dizem e não podem fugir da face de dicionário, mesmo diante das suas mil faces ocultas.

As pessoas preferem mudar as palavras ou nomes como mecanismo de fuga do temeroso enfrentamento da semântica. Estigmatizar uma palavra, deixando-a no exílio empobrece a moral sob a ótica da fragilidade em formular conceitos e encaixar-se neles.

Sendo afro-descendente, negro ou preto não muda o fato de ser dotado de dosagens superiores de melanina e ter origens Africanas (diga-se de passagem, todos nós compartilhamos a mesma origem). Ser homossexual sem se considerar viado, baitola, boiola, etc, não muda o fato existencial. Pior seria negar a condição, deturpando sua existência ao procurar aparentar o que não é.

Diante das características de personalidade e caráter podemos revelar que um bom índice de maturidade seria rir de si mesmo, achar graça da graça dos outros. Daí poderíamos elevar o calão das palavras desmistificando-as: - Palavras são apenas palavras... ações são apenas ações! Dizem que em tempos remotos, os São Paulinos ao descerem a serra para a Vila Belmiro chamavam os torcedores do Santos de "peixeiros". E bradando os santistas repetiam: - Somos sim! Daí surgiu o mascote deste tradicional time de futebol (que lamentavelmente substituíram por um mamífero). Apenas quando não assumimos nossa real condição ficamos ofendidos quando somos chamados por sinônimos. A questão da identidade, do eu, ultrapassa a esfera dos rótulos.

Parte da consciência do existir e da dimensão do espaço que ocupamos. Torna-se um problema nos enxergar demasiadamente sobre o que acreditamos ser a óptica do outro. Ao conjecturar o que as dezenas de pessoas que convivemos pensam de nós terminamos por pensar menos o que somos com nosso próprio pensamento.

Podemos desfigurar a visão de nós mesmos, recaindo em predileções falsas, modismos ou mesmo no vazio pela falta de posição, opinião. Este vazio, cedo ou tarde, será revelado diante de impasses, cuja conduta certamente será considerada como incoerente, paradoxalmente veiculada ao fato de não haver objeto de contradição.

A ofensa somente existe em função do ofendido se deixar ofender. E... por favor... não se ofendam com as redundâncias nem o som de algumas palavras aqui empregadas.

Sobre "Morte e vida Severina", João Cabral de Melo Neto

A vida que teimosamente se renova. Na progressão radial do atroz desbotado sertão, ao verde da mata, nem mesmo o findar do Cabibaribe/Beberibe traz outra realidade que não remonte a morte por demanda daqueles que a custo equilibram as vastas cabeças paradoxalmente afetadas pelos desumanizantes três "d"*. O chão, carrasco e salvador, conforta plenamente, restituindo o negado pela ambição humana. Por que então não acertar o atraso dos naturais ponteiros e precipitar-se para a morte na fonte da vida? Teimosia, ora! Perseverança. Tola esperança! Quem sabe cobrindo nossos indigentes com jornal não chegarão a "doutor". Famigerada vida, anônima morte... Seja cicatrizada ou lodosa não resta escolha para o ser vivente: tudo dado, muito ou pouco, será cobrado.
*dermatite, diarréia e demência

Sobre "Jangada de Pedra", José Saramago

Ibéricos navegando errantes tal Dom Quixote. Amigos fenomenológicos, esparsos acontecimentos. Casais, nascimento. Ciência, eternamente equivocada. Sismógrafos no transe de um homem. Hércules na pedra em órbita. Uma vara a cortar a Terra. Arrevoadas qual cardumes unos. Um vão, cordão, enlace, azul. Êxodo por conta do Apocalipse, confluência num Gêneses crepuscular.
Os arrogantes Pirineus segregacionistas irrompem mais que a geografia. Somos ibéricos. Tordesilhas ainda impera por não voltar à África. O mundo é luso-espanhol. Ornamente seus promíscuos amores com bruscos corpos indagadores. Amigue-se com o mais excêntrico dos animais (encolere Baleia e nade no sertão) e conheça novas terras antigas pitorescas. Amarre a ilha com o celeste cordão para que não vá mais longe que tua imaginação infinitamente limitada.

Paquera Socrática

SÓCRATES: - Olá, posso conversar com você?
XÂNTIPE: - Claro...
SÓCRATES: - Eu estava vendo você do outro lado da boite... mas antes de falarmos eu gostaria de tirar umas dúvidas...
XÂNTIPE: - Sim... pode falar - balbuciou.
SÓCRATES: - Se você fosse homem e estivesse com vontade de conhecer garotas na noite você procuraria as interessantes ou as desinteressantes?
XÂNTIPE: - As interessantes, ora!
SÓCRATES: - E se beleza for um dos critérios, você iniciaria pelas mais belas ou mais feias?
XÂNTIPE: - Pelas mais belas, creio.
SÓCRATES: - Mas e se as belas não forem com a sua cara? Você insistiria ou partiria logo para as feias?
XÂNTIPE: - Olha, dependeria da minha inspiração para puxar um papo.
SÓCRATES: - Então ainda que uma interessante e bela mulher, a princípio, seja antipática, dependendo do papo ainda seria possível a conquista?
XÂNTIPE: - Tem que ser muito bom de papo! Mas o cara possivelmente tem que ser interessante e bonito, partindo do mesmo princípio.
SÓCRATES: - Não é verdade que os homens são mais apegados à beleza?
XÂNTIPE: - Geralmente sim, mas tem mulheres que caem na noite para ganhar...
SÓCRATES: - Então, chegou a hora de definirmos o que é uma pessoa interessante.
XÂNTIPE: - Pois é!
SÓCRATES: - Veja, se algo causa interesse é porque remonta a algo do interessado, concorda?
XÂNTIPE: - Começou a falar difícil...
SÓCRATES: "Estou perdendo a batalha" - pensou. - Mas vamos lá. Algo que desperta interesse provavelmente vai nos retornar algo, certo?
XÂNTIPE: - Certo.
SÓCRATES: - Então quando queremos retorno de algo é porque desejamos esse algo.
XÂNTIPE: - Sim...
SÓCRATES: - E você concorda que nossos desejos dizem algo do que somos?
XÂNTIPE: - Concordo.
SÓCRATES: - Portanto, a escolha de uma mulher diz o que o rapaz é?
XÂNTIPE: - Nossa! Nunca tinha pensado nisso! Mas os caras sempre chegam em todas!
SÓCRATES: - Será porque eles não saibam o que são? - sorriu.
XÂNTIPE: - Você é engraçado...
SÓCRATES: - Mas se você fosse homem e ao abordar uma garota não conseguisse embrenhar uma conversa. Você não vai tentar uma próxima?
XÂNTIPE: - Claro! Se eu estiver com disposição para levar fora a noite toda... - sorriu.
SÓCRATES: - Mas eventualmente haverá alguém que queira conversar...
XÂNTIPE: - Tá certo, tudo bem.
SÓCRATES: - Então é natural que o homem faça várias tentativas?
XÂNTIPE: - Mas você acabou de falar que esses caras não sabem quem são! Estou confusa...
SÓCRATES: - Olha, se um rapaz chega em uma garota, ele identificou algo nela que o interessou. Se ele chegou em dúzias de garotas totalmente diferentes é possível que ele não tenha se identificado fortemente com nenhuma.
XÂNTIPE: - Agora sim.
SÓCRATES: - E se eu disser que depois de você não vou fazer nenhuma outra tentativa?
XÂNTIPE: - Eu sou a primeira da noite?
SÓCRATES: - Sim, como falei, eu fiquei só observando... e por um bom tempo.
XÂNTIPE: - E aí veio conversar?
SÓCRATES: - Isso!
XÂNTIPE:  Então você não vai sair atirando para tudo que é lado?
SÓCRATES: - Definitivamente não!
XÂNTIPE: - Você disse tudo isso para dizer que se interessou por mim?
SÓCRATES: - Por demais! - sorriu jocosamente.
XÂNTIPE: - Gostei... como você disse podemos começar a falar por agora...

texto em gestação...

Sobre "A fenomenologia do espírito", Hegel

Fragmentos de sua vasta obra proporcionaram um espectro do que possa ser Hegel. Na intensa busca transcendental do que é pelo espírito encontra uma natureza que se opõe ao espírito finito e este ao tornar-se absoluto atinge o que se chama "verdade". Assim, "o maior privilégio dos viventes consiste em ter percorrido este processo da oposição, da contradição e da negação até a conciliação dos dois termos opostos". A filosofia torna-se essencialmente "teologia racional", onde a religião supera a arte por tocar na parte mais subjetiva e satisfatória. Liberdade é praticar tais preceitos conscientemente, saber lidar com as naturais oposições gerando uma síntese para harmonizar-se. Ocorre a diferenciação entre o sensível e o supra-sensível, a essência e o absoluto, de modo que a verdade seja tangível e pode expressar-se na arte, mas fundamentalmente na forma de conceito.

luzes

O século das luzes acendeu uma vela nesta caverna em que vivemos, porém enquanto a chama estiver acesa corremos o risco de morrer sufocados. É impossível deixar de ficar aturdido quanto Jesus afirma que "bem aventurados são os pobres de espírito pois eles herdarão o reino dos céus". Como assim? Devemos galgar pela mediocridade, ou seja, a campestre simplicidade de gosto para não incorrer nos dissabores da demasiada reflexão? Ora, ao tomarmos consciência de nossa existência percebemos o quanto nosso eu pode estar expresso em si, e quanto nos vemos nos outros e pensamos o que os outros veem na gente. Ainda, vislumbramos tempestuosos pensamentos das perspectivas sociais e sufocamos na fossa dos excessos que incluem tudo o que comemos com os olhos. Em contrapartida, existem aqueles cuja opinião não passa de uma ou duas palavras do tipo "gosto...", "legal...", "chato...". Será deles o reino dos céus?

Voltando ao telúrico, já podemos nos considerar amaldiçoados por ter que processar e triturar a saraivada de informações tentando aliviar nossas consciências conscientes quanto a tomada de decisões supostamente de vida ou morte. Exemplificando temos as eleições... O bom indivíduo amaldiçoado deveria pensar enquanto enfia seu dedo na urna sobre os precedentes históricos desde Dom Pedro I, consequências econômicas do modelo social-democrata, nas perspectivas da sociedade de consumo com a consequente impossibilidade do bem estar social implicar em colocarmos dois carros na garagem de todos os cidadãos, na investigação do passado de todos os governantes e seu histórico de militância (e no fato de todos eles terem sido presos, torturados e deportados) e ainda prever no que todas essas variáveis poderão resultar incluindo a vida pessoal, caráter, terno e o taier de nossos candidatos. Destarte, teremos um voto consciente se twittarmos todos os candidatos, soubermos os planos das coligações e ainda avaliarmos a potencial capacidade de articulação, afinal, "ninguém governa sozinho".

É fato não podemos atingir a onisciência sem sermos atingidos por um raio ou termos partido o corpo caloso. Sempre recorremos a especialistas quanto admitimos ignorância. Obviamente, é mais barato pagar pelo conhecimento dos outros. Nesta tentativa de quantificar o conhecimento torna-se de bom tom recair na máxima socrática em perscrutar o tamanho da cratera de nossa ignorância. Ainda, em termos comparativos, dificilmente alguém terá uma visão suficientemente abrangente sem ser superficial ou especializada sem considerar todos os fatores que envolvem uma questão. Ou seja, toda a opinião é limitada, porém umas opiniões são mais elegantes por provavelmente abranger nuvens e nuvens de conceitos que nada mais fazem que dissipar-se em chuva, incluindo este texto.

Assim, se toda a opinião corre o risco de ser superficial demais ou profunda demais, colocando em dúvida sua real utilidade, não podemos afirmar ao certo qual tipo de opinião é superior sendo a discussão morta desde seu berço, e, poderíamos sofismar dizendo que a melhor opinião é a mais convincente. Na impossibilidade de diferenciar os indivíduos pela opinião ou profundidade de pensamento podemos dizer que todos herdamos o reino da ignorância desde quando mordemos o fruto do conhecimento do bem e do mal. Peço desculpa aos vaidosos que acreditam saber algo a mais que outrem, e repasso a dica de Delfos "Conhece-te a ti mesmo".

Sobre "discursos sobre as ciências e as artes e sobre a origem da desigualdade", Jean Jacques Rousseau

Bestas procurando os grilhões do subversivo saber. Curvando a natural autoridade sob preceitos de elevação da humanidade damos vazão às mesquinharias hipócritas da sociedade atual.

Quem diria? As luzes trazem as trevas do comportamento estereotipado. O bom selvagem entrega-se aos eflúvios da verdadeira e primitiva natureza humana seguindo benévolos instintos, sendo, portanto, livre ao modo dos bichos deportando as angústias para o lado estressado do Atlântico.

"Enquanto comodidades se multiplicam e as artes aperfeiçoam o luxo se estende e a verdadeira coragem se enerva, as virtudes militares se dissipam".

Rasguemos nossas vestes, queimemos nossas habitações, lancemo-nos ao berço florestal: savana!

Enclausurada verdade científica

A reflexão não é um galardão do apregoado pioneirismo grego em sistematizar uma nova forma de pensamento. Tão pouco foi este o primeiro “povo filósofo”, visto que 1000 a.C. os indianos já possuíam metafísica fundamentada, sabedoria, moral e ascética. Na verdade, muitas das conclusões obtidas pelos filósofos ocidentais foram uma “transmigração” de conceitos orientais sob a óptica metodológica do pensamento introduzido pelos gregos. A forma de buscar a verdade arraigou-se profundamente na concepção do homem ocidental. As ciências naturais e correntes de pensamento modernas, como o materialismo, surgiram totalmente impregnadas desta forma de pensar. O padrão, o estereótipo, foi lançado, muito se conseguiu com este modelo, mas hoje sabe-se que mesmo verdades antagônicas podem ser válidas. Tanto Newton, quanto Einstein estão certos, tal julgamento está correlacionado ao ponto de vista em que se observa.

Talvez o maior diferencial introduzido pelo pensamento grego seja a dissociação do mundo divino do mundo natural. Conforme preconizara Vernant, Zeus não governava o mundo, mas a lei (nómos). Buscar o princípio passa a ser uma premissa primordial da ciência, e a partir dele encontra-se a lei universalizante. Seguindo esse distanciamento do divino, os pensadores gregos buscaram a essência das coisas empregando elementos do mundo natural (phýsis), assim, segundo Tales a água é a substância originadora; para Anaxímenes, o ar. No entanto, a busca da verdade pelo que é puramente concebido na mente, o intelectivo, foi adquirindo aspecto superior. Anaximandro introduziu a existência de um elemento primordial formador do mundo, o indeterminado (apeíron), infinito e em movimento perpétuo. Esta visão de abstração máxima foi ganhando notoriedade, sendo a matemática quem possivelmente incorporou esta faceta com mais veemência, sobretudo com os Pitagóricos, extremando tal conhecimento acreditavam que a essência da realidade é o número. Alcançar a verdade não consistiu mais em ver com os falhos olhos físicos, mas ver além, com os olhos da mente.

A configuração do que seja racional pode ser ilustrada pelo comportamento dos romanos, onde tudo que não adivinha deste mundo greco-romano era tido como “bárbaro”. Ou seja, a medida que vamos nos distanciando dos padrões elaborados por esta forma de conhecimento estamos caminhando para o irracional. Todo conhecimento deve ser elaborado em determinados padrões explicativos (como esta dissertação, p.ex.) com ideias encadeadas e coerentes, sendo as outras formas de transmissão (narrações, poesias, etc) apenas distrações sem maiores vocações.

A procura pelas características que sejam inerentes a cada objeto, sendo a base das atuais especialidades científicas, pode ser considerada fruto da vitória do pensamento de Platão sobre os sofistas. No diálogo de Sócrates com Teodoro, em Teeteto, há o embate com o sofista Protágoras. Sócrates discordara veementemente de que “o homem é a medida de todas as coisas”, atribuindo que não haveria, assim, verdade, já que cada indivíduo faria da sua opinião a própria verdade. A visão arquetípica de Platão, afirma, num plano metafísico, a existência de uma verdade essencial dos objetos. Tudo que vemos são reverberações deste ideal, e a postura da busca do conhecimento diferencia os indivíduos que jazem nas trevas daqueles que saem de sua realidade ignorante para buscar o que já existe no profundo de sua alma, a verdade universal e imanente. Tal busca da verdade teve seus primórdios calcados neste pensamento da existência de uma verdade absoluta, e quanto mais sábio o indivíduo for se tornando em determinado assunto, mas próximo da verdade se encontra e sua opinião será superior a dos demais considerados leigos.

O ideal grego produziu os primórdios desta ciência de causa e efeito, de ato e consequência, ação e reação. De fato, após os três pilares da filosofia, Sócrates, Platão e Aristóteles, este pensamento foi pouco modificado até o século XVIII. Talvez se eles estivessem vivos atualmente condenariam a interpretação que foi repercutida de suas ideias. Tomar-se o mundo natural como existência una restringiu uma série de novos conhecimentos sobre a natureza e sobre o homem. A revolução industrial foi o ápice de uma visão mecanicista e a ciência não se permitiu por muito tempo deixar de ver, p.ex., a célula como sendo uma micro-fábrica, funcionando como um relógio. Nem o ser humano é tão universal assim, pelo contrário, a reprodutibilidade de muitas experiências com substâncias em humanos foi relativizada com a estatística (que salvou o modelo mecanicista de uma brutal derrocada). Se estivéssemos apenas no pensamento naturalista clássico não poderíamos acertar as órbitas de nossos satélites com exatidão e nem saber a posição correta das estrelas. O mundo da psique possivelmente não seria descortinado.

Ainda estamos submergidos culturalmente pela metodologia do pensamento grego. Mesmo querendo discutir sobre a entropia dos modelos fisiológicos, mesmo buscando abstrações, dificilmente conseguimos estudar um objeto sem optar por reduzi-lo a duas ou três variáveis. A ciência determinista é como uma escada. Cada degrau é acumulativo, assim pode-se seguramente subir por ela em direção a verdade que ela proporciona. Tal imagem é cômoda e nos dá a segurança de apontar uma tendência. Porém, sinceramente, eu gostaria que o conhecimento fosse entendido como esferas que se interpõe e o caminho tornaria-se livre, afinal a própria ciência estaria fadada a estagnar-se se não procurasse este caminho. Hoje timidamente tenta-se corrigir este erro com a multidisciplinaridade e com disciplinas como antropologia e filosofia constituintes de cursos na área de exatas e biológicas. É um começo.

Texto de 2006